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DO PÂNICO AO PROPÓSITO – Um relato pessoal

Capa do artigo - Foto do Kiko com título Do Pânico ao Propósito Um relato pessoal, com fundo preto

“Estou com uma dor estranha no peito. Meu Deus, tem alguma coisa errada comigo!”

 

– Foi o que eu falei, com expressão de angústia e tom de desespero, para meus amigos em junho de 2010, durante uma viagem para o interior da Bahia.

Eram minhas férias da universidade de administração que eu cursava nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos e nós estávamos em Amargosa, entre amigos, em uma casa alugada, para curtir o feriado de São João. Enquanto nos preparávamos para a festa mais aguardada da semana, comecei a sentir um aperto estranho no peito, seguido de falta de ar, sudorese intensa e uma sensação de medo profundo, intenso e incontrolável.

“Deixe de besteira, Kiko. Isso deve ser gases.” – um amigo falou em tom de brincadeira.

“Pare com isso, rapaz. Vamos curtir a festa que logo vai passar.” – disse outro amigo em seguida.

Mas eu pensava: “eles estão errados, não estão entendendo o que está acontecendo. Tem algo errado comigo. Algo de muito ruim está prestes a acontecer a qualquer momento.”

Eu não sabia explicar se era uma dor, um desconforto ou uma emoção. Minhas extremidades estavam geladas. E o meu corpo ficou absolutamente tenso e rígido. Era como meu corpo físico estivesse se preparando para fugir de uma situação extremamente perigosa. Toda a minha atenção se voltou para as sensações do meu corpo.

Era como se nada mais existisse ao meu redor. Minha energia estava totalmente canalizada para cada palpitação do meu coração, cada gota de suor nas minhas mãos, cada pensamento negativo na minha mente. Eu tentava respirar, mas faltava o ar. Eu tentava pensar em outra coisa, mas tudo que eu ouvia era meu coração batendo de forma acelerada, como se fosse explodir a qualquer momento. Existia uma voz dentro de mim que dizia: “esteja alerta, pois algo muito ruim pode acontecer há qualquer momento”.

Após alguns momentos de descontração e pensamento positivo, fui relaxando o corpo. Coloquei uma música e tentei focar na conversa com meus amigos, e perceber a energia boa que estava presente naquele nosso encontro tão esperado. Logo, consegui tirar um cochilo e quando acordei, era hora de ir para a festa. Eu estava me sentindo bem, e todos me convenceram que provavelmente tinha sido algo passageiro. Eu acreditei nisso e segui normalmente para a festa, mesmo com um sentimento de insegurança que se apresentava de forma sutil na minha mente.

Após muitas músicas, momentos de paquera, descontração e diversão, eu comecei a sentir aquela mesma sensação novamente. Meus amigos estavam todos bebendo e curtindo, enquanto eu estava sozinho no meio da multidão, com aquele aperto terrível no peito. Neste exato momento, escrevendo para você, eu consigo lembrar exatamente das sensações do meu corpo e dos pensamentos desconfortáveis que passaram pelo meu mundo interior naquele momento.

Eu tentei respirar, me acalmar e deslocar a minha atenção daquele sentimento horrível. Mas não tive sucesso. Quando menos esperava, lá estava eu, correndo no meio da chuva em direção ao posto médico da festa. Ao chegar lá, falei para o médico o que estava sentindo e ele me disse: “você precisa ficar bem logo, pois a ambulância está atolada no barro por conta da chuva.”. Isso me desesperou mais ainda. Ele me deu um ansiolítico e me pediu para sentar numa cadeira de plástico. Eu sentia medo. Muito medo. Comecei a rezar e pedir proteção. Meu celular estava sem sinal e todos os meus amigos estavam bebendo, espalhados por todos os cantos, no meio de milhares de pessoas.

Quando melhorei, o médico do posto me disse que deveria ir para casa e procurar um médico para realizar exames o mais rápido possível. Fui caminhando, no meio da tempestade, com os pés cheios de barro, até um ônibus que levava o público de volta para a cidade. Cheguei em casa. Tomei um banho. E logo saí para buscar um médico. Era de madrugada. O hospital estava fechado. Um taxista me falou: “o hospital só vai abrir após o feriado”. Não havia lugares para fazer exames e eu estava convicto de que tinha algum problema no coração ou que havia algo grave acontecendo comigo.

Fui para a rodoviária sozinho. Decidi voltar para Salvador e ir ao médico. Mas o problema é que não tinha ônibus naquele horário. Eu estava desesperado, com medo. Muito medo. O próximo ônibus sairia só no dia seguinte, mas eu não tinha condições de esperar.

Percebi que havia um rapaz, parado ao lado de um carro cor de vinho na frente da rodoviária. Fui até ele. Perguntei se ele aceitaria ser pago para me levar até Salvador. Outras três pessoas também queriam ir para cidades que ficavam no meio caminho. Ele aceitou. Eram mais de 400 quilômetros. Entramos no carro. Ele acelerou. Pegamos a estrada. A cada quilômetro percorrido, meu medo se intensificava. Uma das passageiras era uma enfermeira chamada Aline. Ela pegou na minha mão e falou: “vai ficar tudo bem”. Eu não conseguia respirar, comecei a ficar tonto. Nunca havia sentido isso antes. Pensei que ia morrer. Meus pais nem sabiam que eu estava ali. No meio do caminho, havia um acidente na estrada, e isso fez o trânsito ficar lento. Fiquei ainda mais apreensivo. “E se eu desmaiar aqui, quem poderá me socorrer?” – era o que eu pensava a todo momento.

Em determinado momento, estávamos passando por uma cidade e o motorista do carro disse que havia um hospital lá. Entramos. Fui até o médico. Minha pressão estava 18/12. Ele me deu uma injeção e a única coisa que eu lembro é de uma maca velha e desgastada de hospital público. Depois de algumas horas de sedação, eu acordei. Aline estava segurando a minha mão. Ela não saiu de perto de mim em nenhum minuto. E ela nem me conhecia. Até hoje não sei se ela realmente existe ou se era uma anja que veio me cuidar.

O médico me disse que precisou me dar uma injeção para a pressão e isso me fez dormir. Me disse para ir para Salvador e fazer exames para identificar o que houve. Cheguei desesperado em Salvador, após a viagem mais longa da minha vida. Chuva. Buzina. Suor. Calor. Frio. Medo. Angústia. Tudo misturado. Parecia um filme de terror. Liguei para o meu pai e disse que estava indo pra casa dele. Eu chorava muito. Fomos direto para a emergência de um hospital. Falei para o médico tudo que aconteceu e ele me levou para uma bateria de exames.

 “Você tem uma saúde extraordinária, meu amigo. Provavelmente você só teve uma crise de pânico. Procure uma psicóloga.” – disse o doutor plantonista.

Confesso que eu falei para o meu pai que o médico era incompetente. Afinal, não era possível eu não ter nada no corpo. Deveria ter algo errado com as máquinas dos exames. Ou o médico não tinha interpretado eles corretamente. Eu estava absolutamente crente de que tinha algo sério acontecendo com a minha saúde. Foi difícil me tirar do hospital. Eu queria refazer os exames.

Meu pai me convenceu a ir pra casa. Tive uma das piores noites da minha vida. Ao acordar, fomos direto para a psicóloga. Ela era amiga do meu pai e tinha muita experiência com o tema. Eu achava que não precisava de psicóloga, mas sim de mais exames.

Cheguei no consultório. Era algo muito novo pra mim. Sentei. Respirei. Ela me perguntou o que havia me levado até lá e eu narrei toda a história detalhadamente. Ela me disse: “tudo indica que você teve uma crise de pânico e nós vamos investigar e tratar isso juntos”.

Logo, começamos a investigar a minha história de vida. Enquanto ela me guiava nesta investigação, eu me reconectei com a minha criança interior. Pude perceber que o medo que senti durante a festa era muito parecido com o medo que sentia quando minha mãe estava alcoolizada, por volta dos 7 anos de idade. Lembro-me de estar sentado na porta do quarto dela, esperando-a dormir para procurar as garrafas de bebida alcoólica e poder jogá-las na privada. Lembro-me de estar esperando-a no portão da escola, com medo de ela nunca chegar por ter batido o carro. Também lembro-me de querer chamar meu pai para me ajudar, mas eles já haviam se separado, e ele morava do outro lado do país. Lembro-me de estar implorando pra ela não beber novamente. Recordo-me que era um medo muito parecido com o que eu havia sentido naquela festa. Uma sensação terrível de que algo muito ruim poderia acontecer a qualquer momento.

Durante uma das sessões de terapia, a psicóloga me disse: “Kiko, recomendo que você procure uma psiquiatra”. Depois de relutar muito, marquei e fiz uma consulta com uma médica amiga dela. Ela me explicou que eu deveria tomar uma medicação para equilibrar os neurotransmissores e evitar que isso acontecesse novamente. Eu não acreditava que precisaria tomar antidepressivos. Mas sim, eu comecei o tratamento medicamentoso e continuei a terapia.

Nos primeiros meses, eu tinha muito medo de sair de casa. Me isolei. Me afastei de tudo. Eu não queria ficar sozinho e nem sair da zona de conforto. Me desconectei do ciclo social e passei a evitar qualquer situação que me colocasse em uma circunstância parecida com o que eu tinha vivido. Evitava festas, trânsito, engarrafamento, estrada, avião, música alta e multidões. Eu tinha medo de ter medo. Tinha medo de sentir aquilo tudo novamente, então preferia não arriscar nada.

Aos poucos, fui melhorando. Fomos conquistando um progresso gradativo, com terapia e medicação. Nesse período, eu estava passando férias no Brasil. No mês seguinte, precisaria voltar para os Estados Unidos, para concluir a minha graduação. Eu tinha muito medo de voltar, não queria ficar sozinho, mas insisti e fui até o aeroporto. Ao chegar no portão de embarque, desisti. Liguei pra minha mãe chorando e falei: “você ainda está aqui no aeroporto? Eu não vou embarcar.” Ela voltou e eu fui pra casa. Só consegui retornar para os Estados Unidos 6 meses depois.

Continuei tomando a medicação. Melhorei muito. Mas ainda sentia uma “cicatriz” emocional. Ainda evitava algumas situações e lugares. Desisti de muitos momentos por medo de sentir aquilo tudo novamente, até que minha ex-namorada, a qual sou eternamente grato, me indicou um curso de respiração da Arte de Viver. Fiz o curso lá na Flórida mesmo, na casa de uma família indiana que morava em West Palm Beach. Foi meu primeiro contato intencional com o autoconhecimento e a espiritualidade. E hoje tenho clareza que foi um ponto de virada na minha jornada.

Foi uma experiência absolutamente transformadora. Comecei a me conectar com a minha essência através das práticas. Comecei a compreender meus valores, talentos, paixões e visão de mundo. Me formei. Voltei pro Brasil. Fui pra índia. Me conectei com meu propósito, descobri a diferença que eu queria fazer no mundo. Despertei para um desejo profundo de contribuição, de fazer parte de algo maior que eu mesmo. E essa conexão foi um combustível extraordinário para que eu pudesse continuar superando a síndrome de pânico. Foi o impulso que eu precisava.

Eu descobri que era completamente apaixonado por disseminar mensagens transformadoras para as pessoas, assim como os instrutores dos cursos da Arte de Viver estavam fazendo. Percebi que meus talentos estavam diretamente ligados a isto. Comecei a mergulhar no autoconhecimento e entender que a minha mensagem estava muito ligada ao despertar da consciência, ao significado da vida, ao ser além do ter. A partir daí nasceu a Euzaria, ao lado de tantas pessoas maravilhosas, em especial meu irmão Zé Pimenta. Depois veio a CazuloE hoje, depois de mais de 200 empresas e mais de 100.000 vidas impactadas positivamente, eu tenho certeza que o alcoolismo da minha mãe e a síndrome de pânico foram presentes para mim. Nada foi por acaso. E eu não sou vítima de nada do que eu te contei aqui. Eu escolho transformar esta história em aprendizado e ferramenta de inspiração.

E o que me fez escrever tudo isso aqui? O desejo de te lembrar que seus desafios são aliados do seu propósito. Acredito que a falta de conexão com o Propósito foi um dos fatores que fez minha mãe um alvo fácil desta doença. Acredito também que a conexão com o meu desejo de impacto positivo no mundo foi meu grande combustível para superar as crises. Eu tinha um motivo maior que eu mesmo para superá-las.

Como diria Viktor Frankl: “quem tem um porquê, enfrenta qualquer como.”. E eu sei que isso influencia minha vontade de ajudar pessoas a descobrirem seu propósito, pois eu sei que ao se conectarem com o propósito, todos terão mais força e determinação para superar todos os desafios da vida e fazer a diferença no mundo.

O pânico me ensinou que eu sou mais forte do que posso imaginar e que a vida é muito preciosa para fazer coisas que não fazem nosso coração vibrar. 

Bom, foram tantas lições e aprendizados que tudo isso poderia virar um livro a parte. Evoluir e servir é o que move o ser humano. E eu acredito profundamente que essa história foi um instrumento para minha evolução, para que eu pudesse servir ainda melhor o mundo ao meu redor. Assim como aquele curso de respiração e autoconhecimento foi um ponto de virada na minha jornada, quero proporcionar experiências de aprendizagem que agreguem valor ao mundo ao meu redor, e quem sabe também contribuir para ressignificar histórias e potencializar legados.

Ah, minha mãe está sóbria há 22 anos e é a mulher mais extraordinária que conheço. Eu continuo com cicatrizes emocionais e as memórias do medo ainda me geram certo desconforto, sim. Claro. Estranho seria se fosse diferente. Mas quem é que não tem certos desconfortos, não é verdade? Hoje, tenho uma nova relação com o medo e abraço minha vulnerabilidade. Continuo buscando evoluir diariamente para que este medo não me paralise. E ainda, consigo contribuir para que meus clientes não deixem que seus medos travem seu impacto no mundo.

Bom, estou apenas buscando evoluir e servir. E é justamente isso que quero te inspirar a fazer através deste relato íntimo: evoluir através da sua história e servir através do seu propósito. De dentro pra fora.

Gratidão.

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